De contêiner em contêiner, a busca pela sobrevivência da família

Pâmela Rubin Matge

De contêiner em contêiner, a busca pela sobrevivência da família
Foto: Eduardo Ramos (Diário)

De dentro de um contêiner, no centro da cidade, eram arremessadas garrafas PET, recipientes plásticos e papelões sobre a calçada. Era preciso desviar “do lixo” enquanto uma mulher e três meninas dividiam a tarefa de recolher os materiais do passeio público e pedir trocados a quem passava por ali. Elas levavam as pequenas cargas até um carrinho de ferro velho parado em frente ao Theatro Treze de Maio. O contêiner, instalado na Rua Venâncio Aires, a cerca de meia quadra da prefeitura e quase em frente à Câmara de Comércio e Indústria de Santa Maria (Cacism), esvaziava-se aos poucos naquela quarta-feira, quando passava do meio-dia, e o movimento típico de quem trabalha e utiliza o horário para o intervalo de almoço ditava o ritmo acelerado de pessoas e veículos.

De dentro daquele contêiner, no centro de Santa Maria estava Jorge*. Ele não usava luvas, tampouco alguma ferramenta que auxiliasse na separação dos resíduos. Era com as próprias mãos que o homem de 41 anos rasgava saco por saco que era jogado ali. No lado de fora, a mulher e as três meninas eram a companheira, de 44 anos, e três filhas de Jorge, duas com 6 anos e outra com 15. Eles vivem na Vila Oliveira, no Bairro Passo D’Areia e têm cinco filhos. Os mais velhos já saíram da casa dos pais, e as três mais novas ajudam na rotina de coleta de materiais recicláveis. 

Jorge relata desconhecer outra atividade em que ele possa ter renda, que não seja a vinda do lixo. Desde o lixão a céu aberto, correndo atrás de um caminhão ou entre lixeiras e contêineres, ele tem atravessado as décadas. O trabalho por meio da catação e de um veículo de tração humana passou a ser opção quando ele sofreu um acidente que o deixou por mais de um ano com o pé direito comprometido.

– Não pude mais correr. Meu pé ficou preso no estribo do caminhão e quase atorou fora. Cheguei a trabalhar para a PRT e para a Revita (empresas de coleta urbana de lixo) antes do acidente. Mas, a vida inteira, desde muito cedo, trabalhei com o lixo. Quando era guri, comecei lá no lixão da Caturrita, depois, fui para as empresas. Nos últimos 10 anos, por aí, estou na lida da rua mesmo – conta.

Rosane*, companheira de Jorge, relata que o valor revertido da catação é de cerca de R$ 500 por mês, e nenhum integrante do grupo familiar conta com programas de transferência de renda. As filhas, duas crianças e uma adolescente acompanham os pais pela manhã e vão à escola no turno da tarde:

– Está sempre em análise o meu cadastro para essas bolsas e auxílios, aí, desisti. Tem gente que nos dá um dinheirinho, roupa e até cesta básica. Se fosse só o valor da coleta seria ainda mais difícil. Para ter uma ideia, faz um mês que estamos sem luz e de noite, é só com vela.

Por volta das 13h, ainda sem o almoço, a família acomodou os materiais no carrinho, cruzou a praça Saldanha Marinho e seguiu em busca de outros contêineres espalhados pelas ruas da cidade.

*Nomes fictícios para proteger a identidade dos menores de 18 anos, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente  (ECA)

Leia o restante desta reportagem:

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Por Pâmela Rubin Matge; colaboraram Eduarda Costa e Leandra Cruber

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